Um Escritor na Biblioteca (revista Cândido, de Curitiba)

REVISTA CÂNDIDO – CURITIBA
Entrevista originalmente publicada no site da Biblioteca Pública do Paraná.
Fotos: Lina Faria

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ent1O escritor Mario Prata abriu em grande estilo a temporada 2014 do projeto “Um Escritor na Biblioteca”. Autor consagrado de romances recheados humor e um dos cronistas dos mais brilhantes do país, Prata falou sobre como alguns de seus principais livros foram feitos, suas leituras essenciais no período de formação e a linhagem de escritores de sua família. “Minha mãe era prima do Campos de Carvalho, autor de O púcaro búlgaro, um escritor fantástico, com uma obra enxuta, porém altamente original. O Campos então abastecia nossa biblioteca com muitos livros”, disse o escritor, que citou Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Fernando Sabino como autores essenciais em sua formação. “Minha mãe, inclusive, era amiga da Helena, primeira mulher do Sabino.”

Um dos autores mais lidos no país, nos anos 1990 Prata emplacou diversos livros nas listas de mais vendidos, como Diário de um Magro (1997) e Minhas Mulheres e Meus Homens (1999). Colaborador de alguns dos principais jornais e revistas do país, Prata acha que a crítica literária, hoje, está praticamente extinta nos meios impressos. “Não existe mais a profissão de crítico no brasil. Os jornais mandam livros para qualquer um fazer crítica, pros jovens repórteres, pode ser de qualquer livro, desde a autora do Harry Potter, que aliás eu gosto, até um cara da alta literatura.” “Nunca se leu tanto no país, e tão mal”, disse o escritor ao se referir à onda de livros de fantasia e de vampiros que há anos tomou conta das livrarias do país.

Atualmente, Prata tem investido em romances policiais. Não só na escrita, mas também na leitura do gênero. “Estou levando a sério esse negócio de literatura policial. Estudo há 8 anos. Você vai achar que eu estou exagerando, mas li uns 800 livros policiais nesses anos. Cem por ano, mais ou menos”, disse o autor de Sete de Paus (2008) e Os Viúvos (2010) — ambos protagonizados pelo detetive Ugo Fioravanti Neto, inspirado nos moradores e na ilha de Florianópolis, local de residência de Mario Prata há mais de 10 anos.
 

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Sempre digo que tive muita sorte na vida. Qualquer profissão que a gente resolva fazer, tem que ter três coisas: talento, trabalho e sorte. E sempre tive mais sorte do que talento e trabalho. Por exemplo: nasci numa casa em que minha mãe lia muito. Minha mãe era prima de um dos maiores escritores do Brasil, que influenciou gerações. Ele não é muito popular porque é muito louco. O cara se chama Campos de Carvalho. Ele mandava os livros pra minha mãe e ela escondia, dizia que era muito forte. Daí, eu ia atrás e lia. Ficava deslumbrando com o Campos de Carvalho. Pra quem nunca leu o Campos de Carvalho, a editora José Olympio publicou, há uns 10 anos, a obra reunida dele. Fiz até a orelha dos livros. São quatro livros. Pelos títulos dos livros, você já consegue entender um pouco quem é a figura: O púcaro búlgaro, A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sútil e A chuva imóvel.

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Minha mãe também tinha uma amizade muito profunda com Helena, filha do governador Benedito Valadares. As duas foram internas no Colégio Sion. E essa menina começou a namorar o Fernando Sabino, em Belo Horizonte. Diz minha mãe, inclusive, que o Sabino foi a Uberaba quando minha mãe debutou. Ele e a Helena. O Sabino também mandava livros pra minha mãe. Além dos livros que comprava, tinha essa influência do Fernando. Depois fiquei amigo dele, foi muito legal. Inclusive, a gente organizou um encontro das formandas do Colégio Sion, de Belo Horizonte, com a minha mãe e a ex-mulher dele, a Helena. Foi uma festa. Mas nós não fomos, foram só as meninas.
 

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A grande sorte que tive, é que quando eu era garoto peguei o auge de duas revistas muito populares da época: a Manchete e O Cruzeiro. Também peguei o apogeu do jornal que mais vendia no Brasil, o Última Hora. E essas coisas chegavam na minha cidadezinha, lá em Lins. E nesses três veículos vinham toda semana textos de Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Henrique Pongetti, Millor Fernandes, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta. Cresci lendo esses caras.
 

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A biblioteca, confesso, comecei a frequentar com uns 13 ou 14 anos. Porque a bibliotecária era linda. Mais que linda, era gostosa. Eu estava começando a despertar sexualmente e aquela menina era uma loucura. Eu ia pra lá, abria o livro, mas ficava tentando ver uns pedacinhos das pernas dela. As saias vinham até aqui, não batiam nem no joelho, mas imaginava, né? Então comecei a frequentar a biblioteca. Gosto tanto de biblioteca que doei a minha. Saí de São Paulo pra Florianópolis e doei tudo antes da mudança. O que eu não li, não vou ler mais. Chamei meus amigos e meus filhos e falei: “Olha, vocês podem tirar o que quiserem daí, que o resto eu vou doar”. Os livros que tinha com dedicatória, evidentemente, guardei. Livros de amigos meus, do Fernando Sabino, por exemplo.

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ent2Minha trajetória de escritor é totalmente absurda. Porque eu comecei pelo mais difícil — o teatro —e acabei na crônica. Iniciei sem ter nenhum conhecimento do que era o teatro. Já que estamos relembrando o golpe, depois do AI-5, em dezembro de 1968, os teatros começaram a ser atacados fisicamente. Depois dos espetáculos, entravam grupos com porretes e batiam nos atores. Aí, então, surgiu a figura do segurança de peças teatrais, que na verdade eram estudantes. Eu participava dessa segurança e era uma coisa muito absurda, porque eu era muito magrinho, muito fraquinho. A gente ia com uma barra de ferro enfiada na calça e sentava na frente. Quando terminava o espetáculo a gente pulava no palco e ficava segurando aquela barra. Não sei o que aconteceria se alguém resolvesse entrar ali, se eu sairia correndo. Era muito estranho. Mas com isso fui conhecendo o teatro, via as peças várias vezes. Fui conhecendo atores, diretores, por ser segurança de teatro. E escrevi uma peça de teatro. Eu tinha 23 anos quando resolvi escrever uma peça. Escrevi e deu certo. Se tivesse dado errado, não estaria aqui agora.

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A peça se chamava Cordão Umbilical. Foi um sucesso em São Paulo. Primeiro em São Paulo e depois no Rio. Então achei que eu era um gênio. E dava grana aquele negócio. Estava cursando o último ano de economia na USP e tava há oito anos no Banco do Brasil, que naquela época era um empregão. Era chamado de partidão pelas moças. “Pô, o cara trabalha no Banco do Brasil”. Teria uma aposentadoria, etc. Lembro até hoje meu cargo, auxiliar de escrita, referência 050 — era o número do meu cargo.


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De uma vez só larguei o banco e a faculdade. Foi um gesto tão absurdo, tão louco, que o meu pai nem ousou conversar comigo. Ele tinha — ainda tem ainda — um irmão padre. Então, ligou pro padre ir até São Paulo pra conversar comigo porque achou que eu estava louco, possuído pelo demônio. O padre foi. Mas primeiro o padre assistiu à peça. E gostou. Só fez ressalvas em relação a algumas coisas.

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Tive grandes fracassos na minha vida. O fracasso no Brasil tem uma vantagem: ele não faz o menor sucesso. Tem lugar que se você tem fracasso, você tá perdido pro resto da carreira. Aqui não. Ninguém te apresenta os teus fracassos. Como todo artista, como toda pessoa, tenho altos e baixos. E aí, depois, com 28 anos eu fui pra Rede Globo.

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estupido2Fui fazer uma novela. Quem tiver mais de 40 deve se lembrar. Chamava-se Estúpido Cupido. Sei que vocês vão se lembrar, eram bem jovens. Eu também era bem jovem. Aquilo foi uma loucura, naquela época a Rede Globo dava 75 pontos de audiência. Era uma coisa assim de eu não poder sair na rua. Até minha mãe pirou, pois virou mãe do autor da novela das sete. Tipo mãe de miss. Nas viagens de carro para Lins, via uns caras no posto e falava: “Ó, ele que faz Estúpido Cupido”. Eu morria de vergonha, porque é horrível isso de ser meio famoso. Porque se entra o Chico Buarque no posto, o cara sabe que é o Chico Buarque. Agora, o meio famoso é horrível. É o caso do escritor, por exemplo.

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O Brasil está lendo muito mal. Nunca se leu tanto no país, e tão mal. Há pouco tempo pesquisei muito a Veja, porque lá tem aquela lista dos 10 livros mais vendidos. Não que eu goste da Veja, muito pelo contrário. Mas aquela lista lá é confiável, até certo ponto. E nos anos 1990, por exemplo, só tínhamos nós, brasileiros. Era difícil encontrar um estrangeiro ali no meio. Estou falando de ficção. E hoje não entra um brasileiro ali nem a pau. Fernandinha Torres [autora do romance Fim, publicado no final de 2013] entrou e já está sendo expulso: ficou oito semanas. Nós ficávamos 40 semanas. Devo isso a uma coisa maravilhosa que aconteceu no Brasil, que é essa nova classe média que está fazendo tudo que ela não podia fazer: por falta de dinheiro, de oportunidade. Essa classe média está fazendo tudo que ela não podia fazer, está indo ao teatro, está lendo. Enfim, está vivendo mais de acordo com a vida normal, saudável culturalmente. Tem mais gente com grana aí. E essas pessoas vão muito pela mídia, pelo que é badalado. Então, no Brasil, no mundo todo, mas no Brasil — essa classe média é meio que uma coisa internacional, não é só nossa — virou moda, tem umas ondas de modismo. Teve uma onda de modismo do Oriente Médio, com o garoto que soltava pipa. Aí tudo que era publicado no Oriente Médio vinha para cá. E veio muita porcaria, e o povo todo lendo essa literatura. De cada 10 livros, um era bom.

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Sempre foi difícil viver de vender livros. E olha que eu vendo bem, mas é muito difícil. Não vivo só disso, não dá. O Antônio [Prata], por exemplo, meu filho — tem até uma mocinha lá trás, parece que ela veio achando que eu era ele. Sou o pai dele. O Antônio, no último livro dele, Nu, de botas, vendeu nos primeiros meses 15 mil exemplares. O que nos anos 1990 era o suficiente para entrar naquela lista dos 10 mais vendidos. Não entrou, mas continua vendendo legal. Mas se não entrou é porque tem livro que está vendendo mais que isso. São essas subliteraturas. Então é isso: estão lendo muito, mas estão lendo mal.

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Foi uma experiência e tanto escrever um livro na internet, ao vivo. Eu digitava e na tua tela, onde você estivesse, Venezuela ou Curitiba, você via como se um fosse uma tela de Word, eu escrevendo ou apagando. E tinha uma câmera me mostrando. Essa câmera que era o pior, porque às vezes a luz caia e as pessoas começavam a reclamar: “Tá ruim a imagem!”, diziam. Aí comecei a comprar refletor. Eu só não passava batom. Era um horror. Eu deixava a barba por dois dias e os caras já reclamavam. Tinham 15 mil pessoas por dia vendo. Eu tinha que fumar escondido: esticava o pescoço e dava uma tragada lá longe.

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Aconteceu uma série de coisas desagradáveis. É uma experiência que eu não faria de novo. Foi um sucesso, para o [portal] Terra principalmente. Eles queriam fazer outra e aí eu pedi uma grana que era pra eu não fazer, porque essas 15 mil pessoas que ficavam ali, me davam muito trabalho. Lá tinha uma página de palpites. Mas isso só durou nos três primeiros dias. Depois elas ficaram amigos e criaram um fórum deles. Eu fiquei sabendo que eles se encontravam e ficavam falando de mim. Aí eu fiquei curioso. Entrei lá e fiquei lendo. Fiquei quieto no começo, mas depois pensei: “Vou bater um papo com esse pessoal aí”. “Oi, pessoal, aqui é o Prata”. Nada, me ignoraram e seguiram falando. “Gente, aqui é o autor dos Os Anjos de Badaró, tô aqui há uns vinte minutos vendo vocês falando de mim e queria participar.” Aí um deles respondeu: “Você é o quinto Mario Prata que entra aqui”.

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Depois, as pessoas que acompanharam o livro pelo Terra fizeram o Encontro Nacional dos Anjos de Prata (Enap). Vinha gente do Brasil inteiro. Fiquei com medo e não fui. Foi num sítio em São Paulo. Trezentas e tantas pessoas. No segundo encontro, resolvi ir. Foi um horror, porque eram todas pessoas que eram fãs mesmo. Então todos queriam que eu autografasse, me puxavam pra tirar foto. Foi muito desgastante.

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O escritor é um pouco investigador e um pouco psicólogo também. Estou fazendo psicanálise depois de velho. Cismei que estava começando um Alzheimer e fui conversar com um psicanalista antes de procurar um neurologista. E tem sido muito bom, pois descobri, de repente, que todo mundo está esquecendo, e não sou somente eu. Meus filhos estão esquecendo, todo mundo está. Com isso, cheguei a uma conclusão sozinho: que temos uma parte do cérebro que deixamos de usar, que era onde guardávamos os números de telefone, por exemplo. Eu sabia uns duzentos telefones de cor, agora só tem um buraco vazio onde esses números ficavam. E vivemos com vários buracos. Se você está escrevendo um texto e quer saber o ano que D. Pedro I nasceu, basta ir lá no Google e ver que foi em 1798, mas você não guarda mais isso porque sabe que está lá. Então, o Google está substituindo o cérebro da gente muito rapidamente. Meu psicanalista e eu, conversando, estamos com medo de onde vamos parar com isso, com que será ocupado esse espaço do cérebro. Não estamos mais exercitando nossos neurônios.

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O escritor é um investigador policial e da alma. Você, ao criar um personagem, está criando uma pessoa. E esse personagem só vai fazer sucesso, você só vai acreditar nele, se ele existir, se ele tiver corpo e alma. O Fioravanti, por exemplo, que é o detetive das minhas histórias, sei como ele é, e quando converso com alguém que leu meus livros, consigo perceber que escrevi exatamente como gostaria, como imaginava, como qualquer personagem da literatura. A literatura policial começou com a dedução, da psicanálise, do inconsciente, com Edgar Allan Poe, por exemplo. Conan Doyle criou Sherlock Holmes, que era médico, uma atividade muito próxima da literatura. O bom é quando o personagem te domina e começa a crescer. Tem uma hora que meu personagem, por exemplo, fala um frase da qual eu morri de vergonha. Então, fiz um asterisco e escrevi lá embaixo que aquilo não tinha nada a ver comigo. É uma frase que eu jamais diria, uma coisa machista, horrorosa, mas acabei indo na dele, fui dar liberdade e o personagem abusou, mas a frase era tão boa no contexto que preferi deixar claro que não era minha ideia, mas ainda assim a mantive.

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Percebi um detalhe importante: os principais personagens de romance policial não envelheciam. O autor escreve durante sessenta anos e o personagem sempre permanece com a mesma idade. Dos anos sessenta para cá, resolveram humanizar as histórias e criar uma vida particular para o personagem, que passou a ter uma casa, relacionamentos, filhos, etc. Isso tem um lado muito bom, pois o leitor acredita muito mais na pessoa como ser humano, mas também tem um lado horrível. Apesar de eu ter envelhecido meu personagem cinco anos, criei um filho para ele, o Valentin, que na época tinha cinco anos. E quando fui escrever o outro, o filho já tinha que estar com dez anos, e eu já não sabia o que fazer com ele. Me criou um grande problema essa criança. Acabei mandando ele estudar em Roma e o moleque passou um ano longe. Mas agora, no terceiro livro, achei que ele, com quinze anos, ficaria muito velho. Então, vou manter o Fioravanti com sessenta e o Valentin vai sumir, até algum jornalista perguntar para mim onde ele foi parar. Vou dizer que ele foi atropelado. Morreu. Eu não quis contar isso, até pro leitor não ficar triste. Mas, pra mim, morreu. Virou um problema, eu não sabia o que fazer. Pensei em falar que ele ia começar a fumar maconha, mas ia ser muito óbvio isso. O pai é detetive, e maconheiro também. Aí pensei no filho fumando, roubando maconha do pai. Péssimo exemplo. O meu filho fazia isso comigo: maconha, cerveja e papel higiênico. A gente morava na frente do outro, no mesmo andar. Sumia tudo.

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Estou levando a sério esse negócio de literatura policial. Estudo há 8 anos. Você vai achar que eu estou exagerando, mas eu li uns 800 livros policiais nesses anos. Cem por ano, mais ou menos. Apesar de que uns 150 eram livros do George Simenon, aqueles livros fininhos, que dá pra ler dois num dia se você tiver a disciplina de leitor que eu tenho. Eu leio quatro horas por dia como trabalho. Comecei a ler literatura policial com os clássicos e fui descobrindo gente que eu nunca imaginei. Então, descobri literatura nórdica há uns três anos: Suécia, Noruega e Dinamarca. Não só livros, mas também as séries de televisão deles, os filmes policiais deles. A melhor literatura policial que se faz no mundo hoje é a nórdica. Acabei descobrindo a origem da literatura nórdica, que não era americana, que não era Edgar Allan Poe, não era George Simenon, era uma coisa muito deles, muito fria. Não era literatura noir, é blanche. Isso eu estou inventando agora: literatura blanche. É branco em francês. Fui até a origem da literatura nórdica. Quando cheguei lá, percebi que estava levando isso a sério. Agora tenho até feito palestras sobre literatura policial.

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A minha literatura, principalmente a parte de teatro, foi toda policial. Eu fui preso, por conta da minha literatura. Pra mim, isso basta. Eu acho que cada vez mais o meu trabalho, hoje, é entretenimento. A literatura começou no mundo muito séria, muito culta, porque todo mundo era analfabeto. Quem lia era classe AAA, só o clero lia. Então, eles escreviam para eles, livros grossos. Mas isso foi abrindo, a pirâmide foi abrindo os seus catetos. Acho que tem que manter um certo nível pra literatura não chegar lá em baixo, mas quanto mais público eu tenho, pra mim é melhor. Se eu fosse fazer literatura policial sobre política, ia ter que pesquisar muito, ia ofender muita gente sem ter certeza daquilo. Depois, estamos numa democracia, finalmente.

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Apesar da imprensa brasileira estar muito ruim, tudo hoje sai jornais, não precisa vir o escritor falar. Nos anos 1970 e 1980, tínhamos que, através da música e do teatro, contar para as pessoas que havia gente sendo torturada — e ninguém acreditava. Meus pais não acreditavam que existia tortura. Hoje, estava lendo uma IstoÉ no voo e tinha uma entrevista com um torturador, com a cara dele em uma foto, contando que torturava, adorava o serviço que fazia. Eu não preciso escrever um policial falando do torturador, porque as revistas tem muito mais leitores que eu. Eu prefiro divertir, a minha literatura policial tem muito humor. O Andrea Camilleri, escritor italiano que aprecio, também é muito divertido. Ele já foi do Partido Comunista na Itália. E agora está numa de só divertir os leitores. Claro que lá no meio, você dá umas pontadas, ninguém muda essa maneira de ver o que é humano, o que é desumano.

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Neste livro que escrevo agora, acontecem quatro histórias paralelas e uma delas é um assassinato encomendado por um candidato a governador de Santa Catarina, porque a história, a história real, de como o crime foi planejado, me interessou e eu comecei a imaginar que a ordem poderia ter partido do governador, que era candidato. E isso entrou no livro, não porque eu tenho interesse na política. Eu quero que a pessoa leia, se distraia. Adoro receber e-mails de gente dizendo que passou vergonha no ônibus lendo meus livros porque ficava dando gargalhadas. Pra mim, isso é um prêmio: as pessoas rirem do que eu escrevo, porque eu escrevo a sério. Em Os Anjos de Badaró, por exemplo, as pessoas não conseguiam entender como eu escrevia tudo aquilo de maneira séria. Porque eu não mexo um músculo enquanto escrevo. Não acho as coisas engraçadas no momento da criação. Quando leio, muito tempo depois, 10 ou 15 anos mais tarde, vejo de outra maneira.
 

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Acho que o Chico Buarque demorou para acertar. Achei o primeiro livro dele, Estorvo, muito chato. O Benjamim é um livro que dá pra ler sem doer. Já com o Budapeste eu morri de rir. O mais recente, Leite Derramado, achei incrível. Infelizmente, como eu falei agora da imprensa, não tem crítico de literatura no Brasil. Não existe mais a profissão de crítico no brasil. Os jornais mandam livros para qualquer um fazer crítica, pros jovens repórteres, pode ser de qualquer livro, desde a autora do Harry Potter, que aliás eu gosto, até um cara da alta literatura. Mas sobre o último livro do Chico, os jornais disseram que era um apanhado da história dos últimos 100 anos no Brasil. Saiu muita besteira na imprensa. Quando eu li — modéstia à parte, somos muito amigos —, escrevi para ele dizendo que só tem louco na imprensa e que, para mim, aquele livro era sobre a mãe dele contando histórias no seu ouvido. Ele respondeu dizendo que, realmente, a imprensa estava muito mal-humorada. Pra quem não leu, o livro fala sobre um velho de cem anos que conta para a enfermeira no hospital a sua vida. Só que esse velho tem dois problemas: ele mente pra burro e está com Alzheimer. Então, ele conta a mesma história várias vezes. E é muito engraçado. Porque você percebe que ele está contando a mesma história, mas ele vai aumentando o conto. É muito interessante, muito engraçado. Acho que com os dois últimos livros, o Chico passou a ser um romancista. Com o Estorvo eu não diria isso.
 

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Estou escrevendo um livro que terá 22 entrevistas com brasileiros ilustres, desde o Rui Barbosa até a Maria I, a louca. São entrevistas que estou publicando na revista Brasileiros, de São Paulo. É escrito assim: dependendo do personagem eu fico um mês pesquisando, outros apenas uma semana ou dois dias. Em novela, televisão, por mais que você saiba onde quer chegar, às vezes muda cem porcento de rumo, e não é só pela influência do público, é de nós mesmos, autores. Os primeiros dez capítulos, escrevo sem saber quem fará cada personagem, após isso, ao saber que será o ator que vai interpretar, já passo a escrever diferente, já consigo ouvir a voz do ator quando escrevo. Mais para frente, passo a assistir alguns episódios, coisa que faz mudar novamente, e quando estreia, tem a repercussão do público. Mas até lá, muita coisa já mudou, não é imediata.

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