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“O futuro do Brasil está em suas mãos”. Eu mijava. Estava gravado na tampa. Depois… depois não lembro mais nada. Acho que bebi demais. Preciso parar com isto, qualquer dia sou atropelado por aí. Agora estou aqui deitado. Que ressaca mais horrível! Devo ter desmaiado. Não lembro de nada. Juro, nunca mais bebo, sempre dá nisso, quando acordo estou em casa. Não lembro de mais nada. Só lembro até a hora que fui ao banheiro. Depois… Tinha uma menina na roda, agora lembro. Como é mesmo o nome dela? Engraçado, não consigo virar. Estou durinho. Que troço esquisito… E o olho? Não abre porque? Nossa Senhora, que ressaca! Devo ter bebido mais, depois. Acho que foi a mistura que eu fiz. Mas e a menina, sim, a menina, o nome dela, hein? Vamos rapaz, o nome dela… Não adianta, não. Meu olho está grudadinho. Parece que colaram. Será que o Jayme me trouxe para casa? Ele estava bêbado também. Que farra! Acho que pior que eu, só meu pai mesmo para beber.

Sempre chegava carregado. Hoje está lá em Campinas, aposentado. Aposentaram ele. E a minha mãe, que é uma santa, aguenta tudo. Eu já teria me largado. Porra, não consigo abrir os olhos! Que porra de falatório é este aí do lado? Será que me levaram para a casa de alguém? Merda, não consigo abrir os olhos… nem me virar… nem mexer! Tem gente até chorando. E este colarinho, quem foi que apertou desse jeito? Não consigo levantar os braços para desapertá-lo. Mas eu não estava de terno… Que que eu aprontei depois? O pior nos fogos que eu tomo é isto, não lembrar o que fiz, de uma determinada hora em diante. Uma vez entrei numa missa das seis e fui perguntar ao padre que celebrava a missa se a Glauce, que sempre confessara com ele dava… Foi um bode danado, quis saber de todo jeito e quando o padre tentando me acalmar disse que só Deus sabia, coloquei toda cumplicidade possível sobre tal testemunha. Gente, preciso parar de beber. Juro, não bebo mais! Pelo menos não misturo mais bebida, como ontem. Mas onde estou? Que raio de choradeira é este? E este colarinho apertado? E este chão duro? Onde é que me puseram para dormir, aqueles crápulas? Preciso ir trabalhar. Que horas são? Este barulho aí fora, de carros correndo. Não, não estou em casa, decididamente. Lá é muito quieto… Não na casa do Jayme, também, mora no décimo terceiro… Meu Deus, que aflição, não consigo mexer nem os dedos da mão, e o engraçado é a posição em que eu dormi. Retinho e com as mãos cruzadas. Neste chão duro até que pareço o defunto dentro de um caixão. Até que a hipótese não é de todo absurda. Do jeito que o Jayme é gozador, bem que poderia ter providenciado meu velório. Aliás, isto que está encostado na minha mão bem que poderia ser flores, E de fato está um cheiro horrível de flores, e agora, sinto também o de velas, cheiro típico de velório! E de flores começando a murchar. Ah… se eu pego o Jayme… Não, coitado, ele não faria isso…… Por mais sacana que fosse. Brincadeira tem limites.

– Coitado, estive com ele ainda na semana passada…

O que? Que gozação é esta? Esta voz é da minha vizinha, ou melhor, da vizinha da minha mãe em Campinas! Pelo amor de Deus, sim, você Deus, eu sempre disse que você não existia, mas pelo amor de Deus, deixa eu dizer alguma coisa. Levantar o dedo, dar um berrinho só. Pelo amor de Deus. Sim, por incrível que pareça, estou dentro de um caixão de defuntos. E este colarinho apertado é o terno que colocaram em mim. Esse barulho aí fora… sim, estou na casa de meus pais, em Campinas. Será que estou indo para o céu? Mas isto é um inferno! Agora percebo tudo, deve ter umas vinte pessoas aqui na sala. Devo estar na sala de visitas. Hoje sou visita. A pior  do mundo.

Que que é isto? Estou morto? Mas morto percebe as coisas? Será que morrer é isto? Vou respirar bem fundo, assim percebem que eu estou vivinho da silva. Não adianta, colocaram milhões de flores no meu peito. Deve ter sido minha avó. Sempre com mania de flores! E, por causa dela, eis aqui o neto indefeso. Preciso ter uma ideia, uma só. Nem que fosse um barulhinho à toa, um barulhinho despretensioso, tranquilo… Vamos Deus, um peidinho por esta alma. Deixa eu dar um peidinho só. De leve… Um trepidarzinho só. Vamos, juro que serei o maior católico do mundo. Dou dinheiro para as missões, pago dízimo, comungo aos domingos, caso com uma filha de maria, isto, serei mariano. Ajuda, vá! Já–já fecham esta merda e me jogam dentro do buraco e lá se vai mais uma ovelha que lhe poderia ser tão útil aqui nesta terra repleta de pecadores. E esta choradeira é que me enche mais o saco. Vamos ser camaradas, um peidinho só, ou mesmo um arroto. Vamos provar a divina onipotência do peido? Você sabe que lá no fundo eu sempre acreditei em você… Você sabe tudo, manja o horóscopo da gente? Um… dois… e lá vão os… três! Nada…  absolutamente nada!

Esta voz eu conheço bem, vem chegando mais perto. É do padre Ézio. Esse sotaque italiano ele vai levar para o túmulo. Besta, não diga estas palavras, túmulo! Veja lá se é hora de dizer tais idiotices! Vamos padre, joguei futebol pelos beneditinos, lembra? Ajudei a vender as rifas, lembra? Fui seu coroinha, lembra? Agora faça alguma coisa, certo? Ponha o ouvido no meu peito, vamos, chegue mais perto, mais ainda, fresco, pare de dizer estas coisas em latim, diga que eu estou vivo, pelo menos desconfie, né? Vamos, quebra esta, vá…

– … pobre rapaz, tão jovem! Mas a vida é assim mesmo. Foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem o quis. Está escrito na Imitação de Cristo, livro famoso que vem, há cerca de cinco séculos, alimentando a piedade da alma cristã em todos os recantos do mundo: “Se tiveres boa consciência, não temerás muito a morte”. Orei por ti, mou amigo, orei por ti…

Orou, vai orar a puta que o pariu! Padre é para ver se a gente está vivo ou morto, chega mais perto, pegue na minha mão, vamos. Pegue, desgraçado. Aquele choro mais longe eu reconheço, é de minha irmã mais nova. Coitada, gostava muito de mim e eu fui morrer. Morrer uma merda, estou vivo. Minha mãe, mãe tem um sexto-sentido. Estou começando a entender o que aconteceu. Foi um ataque de catalepsia. Minha avó era epilética, e devo ter herdado isto. E nunca me falaram nada. Aquela vez que eu desmaiei na estação, deve ter sido isto, e o puto do médico disse que foi estafa. Estafa tem a mulher dele, que dá para todo mundo. Minhas funções vitais ficaram paralisadas por algumas horas e eles não tiveram dúvidas, me jogaram no caixão. Eu sei que tem muita gente que me considerava “a vergonha da família”, eu e o meu pai. Meu pai tinha razão para beber, só de aguentar a beatice da minha mãe deveria ter até estátua na praça da República. Até você, Deus, tomaria seus pileques…

Este negócio de catalepsia deve ter sido ocasionado por alguma lesão cerebral. Devo ter caído quando estava bêbado. Merda de azar… Que horas são? Estou com uma fome infernal. E o pior é que nunca vi dar comida para defuntos. Defunto não sente fome, não sente frio… Frio, não sente frio, por isso que me colocaram este terno fino, de linho, o único que eu tinha aqui em Campinas. E este puta frio; se pelo menos eu tremesse um pouco, alguém perceberia que eu estou vivíssimo.

Estou fazendo um esforço danado para lembrar-me de alguma coisa sobre este raio de catalepsia. O pior é se eu ficar assim o tempo todo, logo, logo fecham este troço e lá vou eu com flores e velas, diretinho para o inferno. Isto, se existir mesmo inferno. Pelo menos, encontrarei com grandes artistas de Hollywood e aquela minha prima que iniciou a minha perdição pelos campos até então inexplorados do sexo. Tenho certeza que foi para o inferno, embora para mim tenha sido um anjo. Chamava-se Solange; a puta. Veja você, eu, que sempre detestei velório, agora, num velório, e o pior: o meu! Aliás deveria ter até um certo orgulho, pois está concorridíssimo. Muitas vozes desconhecidas e choro nem se fala. Tem gente que não diz nada, só chora e choro para mim até então desconhecido. Como aquela velha que entrou aqui há pouco e começou a falar do netinho dela que “imagine, dona Lêda, morreu dum desastre horrível, horrível, ainda na semana passada, no Pacaembu, lá em São Paulo. E guiava bem…” Não tenho a menor ideia de quem seja. Raio, e este mosquito, não tinha mais nada para fazer? Olha aí, bem no meio do meu nariz. Meu Deus que coceira! Que aflição, bem que poderia dar um espirrinho à toa. Agora foi para a boca, anda devagarinho, coçando, incomodando, percebe que não reajo, toma conta da situação, diverte-se, deve ter até defecado. Sai, filho da puta, vai andar na bunda da sua mãe, se é que mosquito tem mãe. Deve ter sim, ainda outro dia surpreendi dois mosquitos em longo ato sexual anal, dentro do meu umbigo. Não sei bem se era anal, mas me pareceu isto. E agora o meu umbigo está cheio de flores. E que cheiro horrível de flores. Sai, mosquito desgraçado! Será que não tem aqui uma só alma que zele pelo meu bem estar? Isto já está me dando mal estar. Como dizia São Boaventura: “olho em torno de mim e vejo-me cercado de amor”. Bela aventura…

– Não, meu amor, não pode ser… é mentira… digam que é mentira!… Meu anjo, não pode ser! Eu te amo, e agora… meu Deus, leva-me com ele… Não, não pode ser, meu amorzinho… meu coelhinho, por que que foi beber tanto? Mentira, ele está vivo. Não pode morrer. Ai… quero morrer também! Meu amor… meu bem… Bem! Ajuda, gente, ajuda, gente…

Coitada da Marisa! Ia dar o fora nela hoje, se é que hoje é o dia que estou pensando que seja. Uma vez em Curitiba, uma moça ficou anos desmaiada. Pode ser que comigo tenha sido o mesmo; não, não é possível, já disseram aí que estiveram comigo na semana passada.

– Minha filha, reze, minha filha, reze pela salvação da alma de seu namorado. Foi o destino, vontade de Deus… Era um bom cristão. Fui seu confessor na infância. Reze, minha filha… Dona Carmela, por favar, leve a Marisa para a cozinha. Está muito chocada. E providencie o cafezinho. Precisamos ficar aqui a noite toda. A senhora viu, a pobre mãe do rapaz está em estado de choque desde que chegou o corpo. É, gente… não podemos fazer nada.  O dia de todos um dia chega, mais dias, menos dias. Precisamos estar preparados. Que Deus o tenha na Santa Paz!

Agora eu me lembro, quando se volta do estado cataléptico ao normal, fica-se de cinco a quinze mintos, assim paralisado como eu estou; depois, recobra-se todos os músculos do corpo. Não preciso me apavorar tanto, logo estarei apto a mandar todos à merda, pular a janela e sair de terno por aí à procura do primeiro bar e da primeira mulher. Pensando bem, e muito sadicamente, até que é interessante assistir ao próprio velório. Mas que sadismo… Enfim, agora é a minha vez de me divertir. Vamos lá… ficarei aqui nesta posicão defuntífera até quando bem me convier. Depois, tomarei as medidas necessárias. Creio que dormir não vou mesmo, além do mais não tenho sono algum, pois dormi até demais, e para alguns, o sono eterno.

II

– Meu filhinho, você não sabe como eu gostava de você! – mas o que é isto? Esta é a dona da garaparia de São Paulo! – Era um dos melhores fregueses, sempre alegre, com boas estórias engatilhadas, divertia todos os fregueses!

E pôs-se a chorar violentamente, entre sussurros como “Deus o tenha” ou “como a vida é ingrata”. Para mim esta velha é uma surpresa. Nunca conversei muito com ela, sempre achei que deveria ser uma velhinha encardida. E olha aí, veio ao meu velório e chora… Veio de São Paulo a Campinas, e nem tenho mais dúvidas que estou mesmo em Campinas, e muito menos dentro de um caixão, e no meu próprio velório.

– Obrigado, não tem bolachinha?

– Café, padre?

– Que horas sai o enterro? Às dez? Acho que então vou dar um pulinho lá em casa e depois volto. A Nair ficou sozinha, sabe como é, criança pequena em casa…

– É como disse Richepin, francês da Academia, por volta de mil e novecentos: “só há um meio de não temer a morte, é desejá-la”.

Esta não, o poeta cinquentão tá aí. Bom amigo, para dizer a verdade. Pena que seja tão bicha como é! Só falta o fresco resolver me beijar, e aí eu vou dar o maior escândalo do mundo. Vai ficar igual à estória da Branca de Neve. Recebeu o beijo do Príncipe Encantado e voltou a viver. Lindo. Ei, espere aí, estou começando a mexer. Sim, viva Nossa Senhora do Ó! Mexi o dedo! Não sou mais dedo duro (horrível). De agora em diante, eu mesmo vou dirigir meu velório. Isto dá até novela, com o Sérgio Cardoso fazendo o morto. Os danados me tiraram o relógio, e o meu pinto está do lado direito onde nunca conseguiu ficar até hoje. Quem me vestiu, logicamente, não deve ter tido a ideia: “e o pinto do morto, para que lado fica”? Sempre para a esquerda, meu bom amigo. E o filho da puta deu este nó que está me sufocando a garganta. Ah! se eu pego este sacana…

– Nunca vi gostar de sorvete como ele…

Coitado, é o Mané da Sorveteria da Esquina. Velho bom, veio aqui. Deve ter deixado a sorveteria com a dona Precília, sua mulher, que gosta de um bom palavrão. Juro, Mané, vou chupar muito sorvete ainda, e de morango, aquele que só você mesmo sabe fazer.

– Caiu como um corpo morto cai… Não pudemos fazer nada. Grande amigo, meio louco, mas bom no copo e com mulher. Cara de pau ao extremo. Batia papo com todo mundo. Se o enterro fosse em São Paulo, todo mundo ia, desde o Faria Lima até aquele mendigo da São João. Acho que ele escorregou e caiu. Não pudemos fazer nada. Morreu na hora. Amigo taí. Citava sempre Confúcio: “Sê solícito com teus amigos”. Estamos aqui, colega. Vamos com você até a última morada.

A última morada está longe, companheiro. Obrigado por ter vindo. Fico contente de ter morrido ao lado de vocês. No duro mesmo. Embora a família deva ter ficado chocadíssima por ter morrido em virtude de um bebum dos diabos. Imagino até a desculpa que deram para os vizinhos: “leucemia”. Imagine, meu filho morrer na sarjeta. Por falar nisto, ainda estou com um gosto horrível na boca. Será que ninguém dos presentes tem Halitol? E a bunda? Assadíssima! Sei lá desde que hora estou com a bunda nesta tábua dura. Os caras das agências funerárias deveriam tomar mais cuidado com os mortos. São pagos para isto. Pelo menos uma almofadinha na altura da bunda, ora essa! A cabeça está bem colocada, não tenho o que reclamar. Por falar em bunda, agora sim estou com vontade de peidar. E desta vez farei tudo para que não seja alto. Ninguém vai suspeitar de mim, e alguém levará a culpa para casa: “é diabólico peidar num velório”.

– Como falou Ghika, poeta romeno: “se julgas finda a tua vida é porque ainda não a iniciaste”.

Desta vez o poeta falou certo: “ainda não a iniciaste”. Lógico, muito lógico e verdadeiro que eu não esteja morto. Estou vivo. Tenho que ter isto sempre em mente, pois num ambiente deste, numa choradeira desta, não é nada difícil eu me convencer que de fato morri. Lembre-se sempre: você está vivo! Eu estou vivo. Tu estás vivo. Ele está vivo. Pelocuparia. Quem está morta é esta velharada chata que pinga as lágrimas no meu bigode ruivo. Agora é o padre dizendo coisas em latim e as beatas respondendo.

– … seculorum, amém. Quando era ainda menino foi à igreja e ficou rezando um tempão. Pediu a Deus um coelhinho em cima da sua cama e depois foi para casa procurar o tal coelhinho na sua caminha. Voltou chorando para a igreja e me procurou: “padre, como é que a gente faz para fazer milagre”?

Ó veado, isto é coisa que se conte na minha frente? Limite-se a dizer suas orações e preces. E que sejam breves.

– Prá mim, este cara era veado. Nunca me enganou!

Desgraçado, não sei quem é, mas se estivesse vivo, tenho certeza que ele não teria coragem nem de pensar nisto. Imagine, eu, o bom, o maior pegador de mulheres do bairro, veado! Vai ver que foi ele que colocou o meu pinto do lado errado. Deve ser algum amigo de infância. Pentelhão, isto sim! Puxa vida, esta minha avó é chata mesmo, está incomodando todo mundo, nem no meu velório vai me deixar em paz? Porra de velha, porque não entra num estado de choque também? Aliás, a hora que eu resolver me levantar desta merda, imagino o choque que ela vai levar. Depois vai atribuir o milagre a São Jerônimo, seu padrinho, conselheiro, e se aparecesse aqui pela terra, até mesmo daria para ele. Faz de tudo este Santo. Olha lá, quer dar café para todo mundo, lavar tudo, tomar conta. Veio lá de Brasilia para o meu enterro. Quem foi o desgraçado que a avisou? Sou capaz de apostar com quem quiser que o café está frio e com muito açúcar. Sempre foi ótima nesta tipo de café. Quero cair morto durinho se for mentira.

Bebeto, não pode ser! – ih… é aquela prostituta da José Getúlio – Não pode ser… Olha Sandra, era muito magro, como você pode observar pela silhueta, mas bom de cama, o danado. Sempre inventava alguma novidade. E olha que para ser novidade para mim, tem que ser coisas das oropas, nu mínimo. Na verdade, não era de dar muito dinheiro, ainda me lembro como se fosse hoje, o dia que…

– Cuidado Neusa, olha a velha entrando!

Isto vai dar um bolo! Deixa a Marisa ver! Que rolo, meu Deus. Só falta a minha avó sair e ela começar a me alisar, eu não vou aguentar, não. Esta mulher é fogo. Eu sempre pifava antes dela. Muita carne para mim. Ai, não disse, veja se tem cabimento, burilando um morto, será que não tem mais nada para fazer, e ninguém na sala? Bonito vai ser se estas flores começarem a se levantar ali pela altura do pinto, vai ser um corre-corre danado. Dá manchete para Notícias Populares: “Cadáver Tarado em Campinas”.

– Neusinha, vamos embora que estão começando a olhar feio para a gente. Olha a cara daquela velha, ali no fundo, puta merda, sô!

Quem são, hein?

– Sei não. Alguma viração dele. Todo velório é este rolo. O pior é quando elas vêm com criancinhas no colo, aí o negócio fica preto. Ainda bem que foram embora. Olha a namorada dele, está chegando.

Ela não fala nada, coitada, mas sinto o seu perfume. Fui eu quem dei. Veio da Argentina. Coisa boa, dia dos namorados! Ela me deu um chaveiro que eu nunca usei, e não creio que esteja usando agora, muito menos. Ela está balbuciando alguma coisa, coisas irracionais; espera aí: está falando o nome do antigo namorado. Aí, sua traidora, eu bem que sempre desconfiei! Se traindo, hein, danada? Vamos, suma daqui antes que eu levante e lhe dê um pontapé onde bem merece. Credo, agora está gritando o nome dele! Que papelão estou fazendo, meus amigos todos aí, sabem de toda a história. Pronto, morro corno! Meus amigos estão todos aí, uns conversam com meu pai na sala, percebo bem. E o meu pai ainda não entrou aqui, ou, se entrou, limitou-se a observar. Sim, meus amigos de bebedeiras, de colégio, ginásio, pessoal da redação, estou lembrando as mil farras, as troca-trocas na infância, brincar de médico com as irmãs, os primeiros artigos assinados nos jornais aqui da terrinha. Como eu era inocente na infância, hoje não pestanejaria em enrabar uma a uma!

Esta é a voz do Sérgio. Faz advocacia. O Caio, cujo primeiro filho vai ter o meu nome (foi um pacto na infância, escrito com o próprio sangue, e o meu teria o dele. Teria não, terá.) Os dois Prados, o Dade, bom num basquete e fim-de-noite e o Jarbinhas reclamando do sapato sujo. Bosco, ex-seminarista, hoje malandro e dentista, ficando careca e de bigode. O Menezes com a esposa, muito simpática, O Gutão, bruto e brigador. Nenê Verdade, mentiroso, doido por um bom velório. Nunca foi meu amigo, é amigo do velório. Assim mesmo, benvindo, Nenê. Professor Fauze e mais mil vozes conhecidas. Amigos daqui e de São Paulo. O pessoal daqui e de São Paulo, sem contar os parentes. O pessoal da faculdade, muitos bicões. Aquele que disse que eu era (sou, ou melhor, não sou) bicha, deve ser bicão. Os dois Jaymes, o Pereira e a noiva, o Nassif, que mora em Jacareí, a Ondina, Ana Maria, Norminha, Antonio Carlos, Susini. Quanta gente, minha gente! Quem está falando agora é o Jorge Sato, conversando com o Júlio, que rasgou o pinto numa trepada genial, nas últimas férias, em Serra Negra. Esta não, até o Alcyr… Minha irmã de vinte anos, Adelaide, com o namorado, vêm vindo para cá.

– Adelaide, vamos ficar aqui na sala pois não tem ninguém – não tem é o que você pensa – e podemos conversar com mais calma. Será que você não compreende que se não tomar os anticoncepcionais, vai acabar ficando grávida? E eu não posso casar. Não tenho nem emprego No jornal pagam uma merda!

– Meu anjo, vamos deixar esta conversa para outro dia? Tá? Afinal, não é todo dia que morre o irmão da gente. E vê se para de falar merda. Respeite pelo menos os mortos. E quanto às pilulas, você viu o que o Papa disse?

– Merda!  Morto não ouve.

É o que você pensa, seu grandissíssimo filho da puta. Você eu juro que quero conversar depois, vai dar anticoncepcionais para a mamãezinha, que está muito mais necessitada. Vou lhe provar isto depois. Bate um papo com o Jonas, aquele advogado da Av. Brasil, bate. Este não morre mais, pensei nele e ele está entrando com aquele vozeirão todo. Acha que só ele tem o direito de falar grosso.

– Hoje foi ele, advogado, amanhã seremos nós – este é o padre.

– Quod dii omen avertant, ou seja, queira Deus que tal não aconteça.

E os dois crápulas puseram-se a rir, aqui na minha cara. É, seu padre, um morto a mais, que falta faz, não é mesmo? No Brasil tem tanta gente melhor que eu, que tanto faz estar vivo ou morto! O padre:

– Alguém disse: as grandes elevações da alma não são possíveis a não ser na solidão e no silêncio – deve ser por isso que o vigário faz tanta elevação.

– Ex ore tue te judico, ou seja, condeno-te por tua palavra.

Ainda bem que estão saindo e foram discutir lá nos fundos, onde é o lugar conveniente para eles: nos fundos. Oras, bolas, discussão metafísica por cima do meu corpo, não! Quer dizer que a minha irmã anda dando para aquele rapazinho acanhado. Muito bem! Deixa a mãe dela saber. Ou mesmo a dele. Deve estar lendo breviário de padre sob o corpo de algum macho.

Agora é o meu tio explicando, não sei para quem, o rolo que deu para conseguir vaga no cemitério. E eu sempre pensei que a gente teria um lugarzinho por lá, já reservado com antecipação. Parece que o rolo foi na prefeitura, que não queria liberar não sei o quê, sem o atestado de óbito.

– Aí então eu disse para o rapazinho: olha aqui, ô fresco, acha que eu estou querendo vaga no cemitério para enterrar o quê? O cu da mãe?

Boa tio! Dá-lhe mesmo! Estes burocráticos têm que entrar bem. Dá-lhe! Arranca-lhe os fundilhos! Meus amigos estão entrando. Vamos ver os comentários dos meus grandes amigos, aqueles que sempre me acompanharam em todas as horas.

– Amigo bom… prá todas as horas. (Sérgio)

– Bebia um pouco … (Dade)

– Puxou o pai, pô… (Jorge)

– O primeiro da turma a ir. (Sérgio)

– É…(quem foi?)

– Pois é… (Bosco)

– Nunca o vi brigar, tava sempre de bom humor (Caio)

– Também com este corpinho, ia brigar com quem? (Julio)

– Julio, isto é hora de gozar? (Luiz Carlos)

– Inteligentíssimo… e incompreendido, o que é pior. (Dade)

– Esquerdista, mas não radical. (Jayme)

– Meu primeiro namorado… (Ana Maria ou Ondina)

– Ele caiu, né mesmo? (outro Jayme)

– Foi… bebeu muito. Ia acabar nisso, sempre avisei. (Dade)

– Me devia dez contos. (Menezes).

– Porra, Menezes, eu pago. (Gutão, e duvido que pague)

– Que coisa, hein? Já pensaram bem no que aconteceu? Morreu o nosso amigo… Morreu mesmo. É dificil de acreditar! Ainda ontem na faculdade…(Norminha)

– Gente, vamos sair que está uma fumaceira dos diabos aqui dentro. (Jayme)

Saíram. Tem um que saiu chorando, não sei qual. Parece que ficaram alguns. Outra vez o tal mosquito! Mais uma coisa imprevista; estou louco para dar uma mijada. Deve ter sido a cerveja.

– Mas, viu, Bosco, é o que eu sempre digo: o Flávio não serve nem para a Ponte Preta, muito menos para o maior time do mundo, o Curintia.

Sairam rindo, o Bosco e o Luiz Carlos. Minha avó está entrando. Já reconheço pelos passos, é a que mais zanza aqui na sala e o reumatismo lhe deu um pisar característico. Vem mais alguém com ela.

– Que o Santíssímo se apiede desta alma! Eu o preparei para a primeira comunhão.

Que vontade de mijar! É a Irmã Blanche, Freira das mais beatas e chatas do reino cristão.

– A vida é assim mesmo, dona Joana, temos que nos conformar. Nosso Senhor o quis, tenha em mente isto. Pobre rapaz, e a mãe, conformada? Aquele tio de Cambuí vai chegar a que horas? Gosto muito dele. Sujeito simples, mas de um coração que só Deus tinha igual, ou melhor, tem. Ó meu Deus, tenha piedade desta alma pecadora, mas boa, leve-a ao seu reino, tenha piedade! Rezarei este terço pela alma deste nosso irmão que agora já desvenda os mistérios que ficam para nós, os pecadores, que ainda não fomos convocados por sua infinita sabedoria e misericórdia. (que vontade de mijar). Vamos rezar um terço, dona Joana?

Não aguento mais. Preciso mijar, estou estourando. Vou levantar. Preciso mijar, meu Deus.

– Por favor, dona Joana, onde ponho esta xícara de café?

Vou mijar nas calças:

– Enfia no rabo!!!

Minha avó morreu do coração, a freira morreu de vergonha e eu morri de rir…

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