Prefácio

RolloverBackArrowCreio que o primeiro contato foi com o colchão. Não deitei nele, só olhei de longe. Chamava a atenção no apartamento quase vazio. Confesso que tive uma certa pena. O dono estava bem magrinho, e a proposta era meio inusitada, feita em nosso primeiro contato imediato de terceiro grau. Foi em fevereiro de 1982. Não dava para esquecer. Tinha acabado de ser pai, estava tentando entender como era a vida com família. Ele bateu na porta, se apresentou como um novo vizinho, contou a história: estava saindo da vida de família, recém-separado. Sabe como é este problema. Aí entrou no assunto. Precisava almoçar, queria almoçar na minha casa. Pagaria pensão.

Claro que não seria uma relação comercial, embora fosse um freguês lucrativo. Pagava em dia e comia pouco, muito pouco. Uma saladinha, um belisco na mistura, e olhe lá. Mas em todo caso a relação formal do pagamento, que fazia questão de manter, mal encobria um certo homoternurismo nascente. O Prata é o que se pode chamar de um pai extremoso, e dava dó ver ele longe dos filhos. Mais ainda quando ele olhava para a recém-nascida Violeta. Ensinou a mim e a Cynthia, que fazia tese, como lidar com as cólicas, colocava a menina para dormir.

Logo colocou também numa história infantil que escreveu, o que me leva diretamente a outro assunto. Parece fácil colocar os detalhes da vida por escrito. Mas só parece. Pois então me lembro de uma confissão do Cláudio Santoro, um dos maiores músicos eruditos do Brasil. Madrugada nevoenta num restaurante de hotel. Ele falava de seu trivial: o grande respeito com que era recebido na Alemanha e a relativa ignorância de sua obra no Brasil. Então confessou: “Quer saber? Está certo. Há quarenta anos eu briguei com o Villa Lobos. Sabe, ele estava fazendo arranjos de cantigas de ninar, Nana nenê, essas coisas. Achava aquilo uma bobagem, coisa fácil, não era compor. Mas hoje eu sei que o difícil, difícil mesmo, era perceber que importante era fazer aquilo. Dele todo mundo lembra.”

Quando você, caro leitor, estiver se deliciando com a descrição do conteúdo da carteira do Mario Prata, aproveite para fazer seu balanço. Não está nela alguma coisa que pertence a você? Mas esta carteira é feita de palavras, palavras que prendem o olho à letra, a letra à memória pessoal, o leitor ao autor. Tudo isto no espaço de um curto texto. Tão divertido quanto fazer palavras cruzadas ou tirar casquinha. Cola na gente como a música de Villa Lobos, com prazer.

Tudo isso ajuda a passar bem o dia e o tempo, mas também torna mais difícil perceber uma coisa. Mario Prata é um mestre da língua, da frase rápida. Entra no assunto como entrou em minha casa, inusitado e muito à vontade. Passeia pelo corpo ou o controle remoto como se tivesse um mapa de nossas emoções mais corriqueiras, aquelas que a gente sente muito e liga pouco. Só consegue fazer isso porque controla totalmente o que sai de seu teclado. Para isso, não usa o livro de maneira usual. Mistura Dostoievski com multa de trânsito como se fosse a coisa mais natural do mundo – e ainda tira uma seda do papel para embrulhar mais um barato. Enfim, escreve muito e não parece literato.

Com o tempo de convivência, aprendi a admirar o grande escritor Mario Prata. E daí? Melhor fazer logo a confissão. Tenho inveja. Assim dispenso você, caro leitor, de meus maus sentimentos para deixá-lo com o prazer de ler o objeto deste prefácio.

Jorge Caldeira

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