Os beatniks e os hippies estão vivos

inicioBerkeley – Alguma coisa acontece no meu coração, mas só quando eu cruzo a Telegraf  Street com a Abhey. Caí nesta rua, meio sem querer, a Telegraf. Foi ali, nos anos 60, em Berkeley, que surgiu o movimento hippie internacional. Berkeley é onde está a Universidade Estadual da Califórnia, do outro lado da baía, atravessando a ponte. De repente, na minha frente, a rua foi interrompida pelos policiais. Era domingo, dia da feira hippie. E eu lá. O sonho, pelo menos o meu, não havia acabado.

Eu ainda não havia me refeito de, na noite anterior, de repente, ver, diante de mim, a pequena Kerouac Street, em San Francisco, bem ali do lado da Chinatown. Na esquina, a célebre (celebérrima) City Light Books, livraria do não menos célebre poeta beat Ferlingetti. Que estava lá dentro, com mais de 70 anos, atendendo gente. Foi ali, naquela pequena esquina, que nasceu o movimento beatnik. Olho na vitrine: uma bola de beisebol assinada pelo Alain Ginsberg, o pai de todos. Fiquei mal, entrei na Condor e pedi uma tequila. Eu não estava preparado para tanto.

E agora, menos de 12 horas depois, eu estava ali, na feira hippie, em plena Telegraf. Quem tem mais de 40 pode imaginar o que é isso. Fui ver a feira. Gente, a feira é hippie, só que é feita pelos mesmos hippies dos anos 60. Só que agora eles estão todos old hippies, alguns ostentando orgulhosamente os netos nas costas. Mas as roupas não mudaram: são as mesmas. Não estou me referindo ao estilo, mas sim à mesma roupa. A velha calça Lee desbotada, o velho casacão de veterano e protesto contra a guerra do Vietnã, o mesmo rabo-de-cavalo e, quem sabe, as mesmas pulgas, agora quase quarentonas. Juro que vi um hippie guiando um Karman Ghia. Quer coisa mais autêntica?

A feira fica no fim da rua. Antes, um supermercado só de comidas naturais. Os hippies realmente conquistaram o seu lugar em Berkeley. A universidade tem 30 mil alunos, 15 mil em pós-graduação. Você passa pelo sebo Shakespeare & Co. e cai nas mãos dos velhos e simpáticos agora cinquentões.

Na frente da porta principal da universidade, um bar. Para se tomar café. Estudantes do mundo todo por ali. Não se pode fumar, mas pode-se ler todos os jornais do dia. E foi lá que eu fiquei com o coração nos anos 60 a ler as notícias da Copa.

Aqui na Califórnia, a nossa imprensa, os nossos jornalistas fazem muito mais sucesso que os nossos craques. Os jornalistas americanos estão impressionados com a quantidade deles. O jornal San Jose Mercury News, por exemplo, o principal de San Jose, onde estão os nossos craques gutenberguianos, dá como principal manchete na primeira página: Brazilian press swarms over South Bay. Sim, não estão interessados em entrevistar nem Romário nem Bebeto. Mas a nós, jornalistas.Na matéria de quase página inteira na back page, fica-se sabendo coisas interessantes:

– os jornalistas brasileiros emprestam seus quartos para os jogadores terem seus encontros sexuais;

– a vida, para eles, é snooze and the no-smoking laws are a drag;

– Fulano, da Globo, afirma que soccer is a game for men, talvez se esquecendo que o time feminino americano de futebol é campeão mundial;

– Fulaninho, da revista Caras, tá com quatro mil dólares de cash no bolso e mais um cartão de crédito com limite de dez mil. Os americanos acham demais isso para cada um dos 750 jornalistas brasileiros que estão em San Jose.

Já o San Francisco Examiner, o mais lido em San Francisco, afirma que o Brasil pode ter descoberto um novo Pelé: Ronaldo.

Mas, neste mesmo Examiner, tem uma notinha pequena, nas páginas internas, contando que, pela primeira vez, a seleção feminina de basquete está fora de uma final mundial em 11 anos. E enaltece Paula e Hortência.

Termino meu café e volto para a feira hippie. Fico olhando: o que será que aquela loirinha sardentinha pensa em ser neta do hippie? E eles, será que eles sabem que vai acontecer por aqui um campeonato mundial de futebol? Ou ainda estão preocupados com o Vietnã?

Os beatniks e os hippies estão vivos. Pelo menos por aqui. O sonho continua. Como o nosso, depois de 24 anos, de sermos campeões mundiais de futebol, como já fomos três vezes, no tempo deles.

Paz e amor.

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