O jogral

inicioAniversário de São Paulo. O Zélio, Secretário da Cultura, me pede uma crônica sobre São Paulo. Como?, pergunto eu, se São Paulo são tantas e são tantos os que moram aqui. Poderia escrever um livro inteiro contando tudo que vi e vivi e revirei nesta cidade que escolhi para viver durante 35. Amo (amava) São Paulo. E não me pergunte o por que, que eu não sei.

Tanta coisa me marcou nesta cidade, que… Comecei a pensar nestes 35 anos aqui ali. Pensar na noite de São Paulo. 35 anos de noite. Mas, três deles, especiais, vividos dentro do Jogral. O Jogral, da Avanhandava, durou três anos. Fechou quando o dono, meu querido compositor Luis Carlos Paraná, morreu, em 71.

Era um bar e pequeno. O que? Cem pessoas? Por aí. Não se fazem mais bares como antigamente. Também não se faz mais final de década como a dos anos 60. Minissaia, homem descendo na lua, festivais da Record, Jovem Guarda, Tropicalismo, Cinema Novo, Arena, Oficina, Chacrinha. Todo mundo era garoto. Todo mundo tinha entre vinte e vinte e cinco anos. O golpe militar tinha seis e era perigoso até mesmo dizer que estudava na USP. Tinha gente sumindo pelo buraco do ladrão.

O Jogral era a válvula de escape. O Old Eight deste que te escreve, na época estudante de economia na USP e mui digno funcionário do Banco do Brasil, no Brás.

Foi no Jogral que vi, pela única vez, a Leila Diniz. Com o braço engessado, um ou dois anos mais velha do que eu. Tinha o que? 24? Claro que fui autografar no gesso dela. No Banco do Brasil, onde eu era Auxiliar de Escrita referência 050, ninguém acreditou.

Foi no Jogral que, um dia, uma moça bonita sentou-se entre o meu banquinho e o do Edson Paes, bom jornalista. Acabou casando com ele e fazendo sucesso. Era a menina Irene Ravache que, naquele mesmo dia, me pediu para escrever uma peça para ela. Eu brinquei: eu nem sei se você é uma boa atriz… No que ela retrucou: eu também não sei se você é um bom autor… Até hoje a gente brinca com isso.

Foi no Jogral que, uma noite, sem mais nem menos, me entra o Oscar Peterson e, depois de tomar umas, foi ao piano e tocou até de madrugada, acompanhado no violão pelo grande Geraldo Cunha. O Paraná revistava as gavetas atrás de uma fita para gravar o momento histórico. Ficou doido, não tinha nenhuma fita na casa. O som só acabou com o sol. E desapareceu para sempre.

Foi no Jogral que eu ouvi pela primeira vez a expressão deu cinco, sem tirar. Era a Elza Soares comentando a performance – fora do campo, ou dentro) do nosso mágico Garrincha.

O Jogral, do porteiro Carlinhos que conhecia os frequentadores todos. E se você chegava com uma mulher diferente ele dizia: sumido, doutor!, e o doutor era eu que estivera na véspera com outra.

O Jogral, do garçom Joãozinho. No palco, o piano afinadíssimo do Mario Edson, a voz macia da Ana Maria Brandão. E quando o Manezinho da flauta solava um Pixinguinha?

Na mesa ao lado você podia ver a Maysa vomitando aos pés do Trio Mocotó. E as canjas? Chico, Gil, Jorge Ben, Toquinho, Maranhão. Foi lá que ouvi, pela primeira vez, Aquele Abraço, do Gil que partiria exilado na semana seguinte. Jorge Ben fazia suas músicas e ia testar lá. Tudo moleque.

A voz de veludo do Adauto Santos, parceiro do Paraná em tantos sambas. E tinha só uma garrafa de cachaça, que era do Paulo Vanzolini. É provável que até hoje o Vanzolini não saiba que o Paraná roubava a cachaça dele e dava pra gente, quando a dureza apertava. De noite eu rondo a cidade…

Mas umas das histórias que mais me marcou no Jogral foi trágicômico-política.

Meu companheiro de Jogral – de quase todas as noites – era o Zeluis Franchini Ribeiro. Colega da faculdade. Trabalhava na Globo, que engatinhava. Vendia anúncio. Hoje, mais amigo do que nunca, é o Diretor Geral Comercial de toda a rede.

Aconteceu que o Zé foi um dia para o Rio de manhã para voltar de noite. Perdeu a carteira de identidade lá e não podia embarcar de volta. Naquele tempo – pouco depois do AI-5 -, na ponte aérea, além de mostrar os documentos, revistavam a gente todinho e a bagagem e a mala de mão. Andavam acontecendo sequestros de aviões. Lá no Rio encaminharam o Zeluis para a Aeronáutica. Um tenente deu um documento para ele com papel timbrado das Forças Armadas e ele embarcou.

Chegou em São Paulo e foi direto para o Jogral. Naquele tempo, era comum batidas das Forças Armadas em bares e restaurantes. E ai de quem não estivesse com todos os documentos em dia. Era levado e nem sempre trazido de volta.

Pois, naquela noite, chegam os milicos, acendem todas as luzes e começam a revista, metralhadores empunhadas. Quando chegou no Zeluiz, que já suava frio tomando Old Eight no balcão, ele ficou com medo. Além de não ter o RG ele só tinha a carteirinha da USP, o que era pior ainda. Gelou. Chegou o sargento:

– Documentos, ô bonitinho.

– Seguinte, seu sargento, eu só tenho esse documento aqui e….

E mostrou o papel timbrado das Forças Armadas Brasileiras. O sargento sorriu ao ver o brasão militar e deu uma piscada e um tapinha na barriga dele. Logo sem seguida vinha outro militar para fazer o pente fino no Zeluiz. Ao se aproximar, foi barrado pelo milico anterior que disse:

– Esse aí, não. Esse aí é dos nossos!

E para o Zé explicar depois para a galera?

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