O casamento da prefeita e o sapato

inicioNo que eu tropecei, a minha filha, envergonhada, constatou:

– Pá, olha a sola do seu sapato… (que vexame, meu Deus!)

Olhei. Havia soltado inteira. Apenas no bico, alguma cola ainda segurando as pontas.

Na mesa, à minha esquerda, o Danilo, diretor do Sesc. Na minha frente, o Felipe (meu ex-calouro e ex– presidente da Petrobrás) com a sua mulher, a Tuta. Ao lado dele, o João Sayad com a Cosette Alves. E ainda a Suzana Prado com seus três filhos. Apesar do ambiente (aparentemente) político, estávamos num calmo, bonito e elegantérrimo casamento. Da Marta e do Luis. E o assunto naquela mesa era Harry Potter e as praias de Florianópolis.

E estava na hora de se levantar para cumprimentar os noivos. E, lá na fila, estava, entre outros, o presidente da República. Minha filha dizia: não levanta (ela trabalha com moda, imagine você). Foi quando o Caito, filho da Suzana e do saudosíssimo Caio Graco, me descolou uma fita com os músicos que, segundo ele, colava até pensamento. E ficaram ali, uns três agachados ao lado da mesa, tentando colar a sola.

A culpa não era do sapato, tenho de reconhecer. Ele estava no fundo do armário e não me lembro de ter usado o danado nos últimos dez anos.

Quando eu o peguei, confesso que estava meio embolorado, mas um paninho úmido resolveu. Era (sim, um dia foi) um belíssimo sapato português, comprado em Lisboa, em 1991.

Digamos que ficou (mais ou menos) colado. Fui pegar a fila, que felizmente era lenta. Voltei arrastando a perna, dei um beijo no Antonio Pitanga, troquei figurinhas com o Mercadante e sentei no meu canto. Olhei e a coisa estava despregando, de novo. Fiquei na minha. O assunto agora era a candidatura do Fernando Morais para a Academia Brasileira de Letras e a beleza da noiva.

Chegou a hora da comida. No que eu me levanto, a Maria:

– Pá, soltou! A do outro pé!

Que cena ridícula. Ainda percebi um segurança cutucando o outro com o cotovelo, apontando na minha direção. Ficaram atentos. Podia ter uma bomba ali dentro. Me lembrei dum suicida que entrou num avião com uma bomba na sola do sapato, lembra?

Não tive dúvida, me agachei (a Petrobrás, uns ministros e o Sesc são testemunhas), arranquei as duas solas e joguei debaixo da mesa. A Maria não acreditava no que estava vendo. Me lembrei do Tony Curtis e o Jack Lemmon debaixo da mesa em Quanto mais Quente Melhor, e o tiroteio rolando lá fora.

Meu medo agora era que o sapato se dissolvesse por completo e eu ficasse só de meia. E sapato não é igual cigarro, que você pode virar para o cara do lado e dizer: acabou o meu cigarro, você tem um aí no bolso? Ninguém ali devia ter um sapato sobressalente. O Pitanga usava um branco e o Vicentinho, um amarelo. Sem sobressalentes, imaginei.

Comecei a raspar no chão o couro que sobrou e senti que era liso, bom para dançar. E começou a valsa, com a Marta e o Luis, depois com o Lula e a Marisa, depois com os ministros, até chegar em mim, do MSS, Movimento dos Sem-Sapatos. Sem a borracha (abandonada para sempre debaixo daquela imaculada mesa), eu valsava com a minha filha ali, ao lado do poder nacional.

– Foi bonita a festa, pá!

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