Na padaria inglesa

inicioQuando o Zeluiz Franchini Ribeiro mudava de casa, o primeiro item da nova moradia era: uma padaria na esquina. Tendo uma padaria por perto, o resto era lucro. Tamanho, número de quartos e de vagas na garagem, silêncio, etc, era o de menos. O Zeluiz não conseguia viver sem uma padaria logo ali.

Era ali, no balcão, que ele era mais ele. Aquelas conversas com o bêbado anônimo de cotovelo amassado. Zeluiz chegava ao cúmulo de classificar as padarias por coxinhas. Quando a padaria era ótima, era uma cinco coxinhas. Zeluiz subiu na vida, mas nunca abandonou uma boa padaria. Sem um balcão ele não vivia.

Foi quando foi mandado, pela Globo, para uma convenção em Londres. Nem bem se instalou no hotel e já foi dar a volta, procurando a padaria. Primeira viagem ao exterior mal sabia ele que padaria, enquanto padaria, só mesmo no Brasil. Nem mesmo em Portugal, matriz de todas as nossas padarias, tinha padaria como no Brasil. Em Portugal temos a original pastelaria. Mas não é como a nossa. Imagine, então, em Londres.

Zeluiz não falava inglês. Nem arranhava. Lembrava de alguma coisa do tempo do ginásio. Mesmo assim descolou algo parecido com uma padaria, lá na Inglaterra.

Na primeira noite, depois daquela convenção chata, padaria. Sabia pedir uma cerveja. One beer! E sabia pedir mais cerveja: one more! Pois já estava lá pela quarta, certo que dominava etilicamente o inglês, quando um ilustre britânico acotovelou-se ao seu lado. Cumprimentos com as cabeças, sem texto. Mas o inglês era chegado num papo. Afinal, ninguém vai a uma padaria impunemente.

Começou a falar, o inglês. O Zeluiz não entendia nada. Só balançava a cabeça. Dava para entender alguma coisa. O inglês, pelo o que o Zé ia entendendo, estava falando da vida de merda dele, da mulher dele. O cara estava mal mesmo. Mas o Zé, por mais que tentasse articular uma frase inteira na cabeça, logo se perdia nos verbos. Ficava calado. Não tinha a mínima ideia de qual era o problema real do gordo e ruivo súdito de sua majestade. Mas existe a solidariedade da padaria. Ele tinha que ouvir.

O inglês já estava no terceiro uísque, quando começou a chorar. O inglês já estava quase que abraçado naquele amigo que não entendia nada. Resumindo, os dois já estavam meio bêbados, como convém a frequentadores de uma honesta padaria, mesmo que falsa e inglesa.

Até que chegou uma hora, o inglês parou de falar e ficou olhando para o Zeluiz. Estava claro que era a vez do nosso personagem falar, dar uma força, uma direção para a vida do sujeito. Eles estavam ali, lado a lado, há mais de duas horas. Eram velhos amigos. Mais do que isso. Eram cúmplices. Zeluiz pediu uma saideira e the bill. O inglês também. Zeluiz tinha que dizer alguma coisa. Mas o que? Em que língua? Se ele falasse, àquela altura da amizade, que não tinha entendido porra nenhuma, era bem capaz de levar uma surra. O cara tinha contado a vida toda para ele, ele imaginava. O cara olhando, esperando. E o Zeluiz, com a maior cara de pau do mundo, colocou a mão no ombro dele e disse tudo que sabia, em inglês:

My friend, yesterday is yesterday. Today is today. And, tomorrow is tomorrow!

Mágica. Aquilo era tudo que o inglês queria e precisava ouvir. O Zeluiz tinha resolvido o problema da vida dele. O inglês beijou o Zeluiz entre lágrimas e dizia:

Wonderfull! Wonderfull! The best! The best!

Zeluiz pagou a conta e foi embora. Afinal, tomorrow is tomorrow e padaria inglesa nunca mais.

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