Do tempo do onça

inicioVinham três. Eram azuis. Bem azuis. No meio, o meu nome e o logotipo do banco.

Estávamos em 1977. Cada cartão daquele dava direito a, mais ou menos, o equivalente, hoje, a quarenta dólares. Fui ao banco, depois de estudar muito bem estudadinho, na carta, como devia agir. De noite, fora de hora. Lá estava a máquina, do lado de fora do banco. Aquilo era a coisa mais moderna que eu já tinha visto na minha vida.

Estava escrito lá: enfie o cartão aqui e aguarde o seu dinheiro. Juro que eu achei que aquilo podia ser uma pegadinha (sim, já existiam). Olhei para os lados, coloquei o cartão lá e ele foi chupado.

– Foi chupado, disse para a minha mulher que acompanhava tudo ao lado, repórter que era.

A seguir a máquina fez o maior esporro. Achei até que ia explodir. Recuamos. Ficou quieta e o dinheiro saiu. Contei. Incrível, estava certo. Como é que…

Fiquei olhando para a máquina. Esperando o cartão. Nada. Minha mulher, olhando o dinheiro e recontando:

– Deve ter um japonês aí dentro.

O cartão não voltava. Eu olhei para os lados para ver se não tinha ninguém e murmurei para a máquina:

– O cartão. A senhora esqueceu de devolver o cartão. Aquele azul.

Nada. Fazer o que? Fui embora.

Dias depois recebia, pelo correio, o cartão na minha casa. Achei mais moderno ainda. Ele voltava.

Sentado na cadeira de balanço, fumando precocemente um cachimbo, punha-me a pensar:

– Onde é que vamos parar?

Minha mulher desce. Estourou a bolsa. Maternidade. Primeiro filho. Na manhã seguinte (era domingo) lá fui eu todo metido para o lado da máquina. Meti logo os três cartões, que eu já era do ramo. Era pai e tinha aquele cartão. Não queria mais nada na vida.

Hoje, tantos anos depois, o Antonio, que nasceu no mesmo mês que aquela máquina, quase não usa cheque. E me goza, já que contumaz sou:

– Você ainda não percebeu, pai, que hoje, todo lugar que você for dar cheque, tem cartão? Dizem que até puta e traficante, tem. Como diria você mesmo, você é do tempo do onça.

É, sou do tempo do onça. E, no tempo do onça, eu era bancário. E você, bancário ou bancária, que cá está lendo essas lembranças, não pode imaginar o que era um banco, naquela época. Dá uma olhada em volta. Tá vendo esse monte de computadores em sua volta? Não tinha. Nada. Em cima de cada mesa tinha uma máquina de escrever (era um horror trocar a fita), uma de calcular, uma carimbeira (para os 7462 carimbos), papel carbono e mata-borrão. Você tem ideia do que seja um mata-borrão? E copiadora a álcool? E que vinha um velho senhor, de terno e gravata, te servir cafezinho toda hora, você acredita?

É, o primeiro cartão a gente nunca esquece. O nascimento do primeiro (e demais) filho a gente nunca esquece. E, principalmente, o primeiro emprego e o primeiro carimbo.

Era um carimbo com uma data: 28/02/66. Uma época onde ninguém ainda se preocupava com o bug do milênio. Os anos passavam normal e naturalmente. Não tinha onça dentro dos computadores.

E eu, eu carimbava o tempo.

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