As tetras para o penta

inicioQuase Paris – Estou escrevendo isso aqui dentro de um avião, no meio do Atlântico, voando para Paris. Meio-dia de ontem, terça.

É um voo-fretado, só de torcedores (poucas mulheres) Dá para você imaginar o que está acontecendo aqui dentro? Impossível. Supera a qualquer imaginação do ser humano. Eu sei que você não vai acreditar, mas acaba de passar, aqui pelo corredor, um galo. Juro! O galo é o símbolo da França. Deve ser isso. Não me pergunte como foi que ele embarcou nessa.

Os homens aqui dentro estão fazendo exatamente o que querem. Viraram meninos, crianças de novo. Quer coisa melhor do que isso? Vestiram uma camisa amarela e saíram (voando) por aí.

Agora, por exemplo, tem um ex-deputado federal tocando aquela buzina (aquela, sabe, meio corneta?) bem no meu ouvido. Já tem nego bêbado por aí. Coitada das aeromoças. Não sabem em que viagem embarcaram. Já-já vão passam a mão na bunda da Denise, tenho certeza.

Pensando bem, olhando bem para a Denise… Deixa pra lá. Lá na fileira 18 tem gente fazendo aposta. Vale primeira fase, oitavas de final, quartas de final, semifinal e final. Arrisco um palpite na primeira fase, ou seja, vamos ser eliminados. Um dentista quase me dá uma porrada. O jogo corre solto. Vai começar o filme: Os Desajustados.

Alguém vomitou no toalete, o comissário já foi providenciar.

Um casal descobre, só agora, que o hotel deles é quatro estrelas. Ela está quase arrancando os cabelos. Joga a culpa toda nele, diz que ele vai ter que resolver esse problema, que ela, imagine, não fica num quatro estrelas nem morta! Sabia que não podia deixar nas mãos dele. Pós-feminismo?

Informação que vem lá da primeira classe avisa que o galo vomitou na 3-C.

A velhinha pergunta para o velhinho: trouxe a caixinha de Viagra? Ele confirma com um sorriso maroto.

Duas bichinhas de Uberaba comentam que estão indo só pela abertura. Acham um luxo.

Na minha frente um dentista de Sorocaba acaba de descobrir que o seu vizinho de poltrona, de Teófilo Otoni, é primo dele, filho do Joquinha, se é que eu ouvi bem. O de Teófilo Otoni pergunta por vários parentes. Todos haviam morrido, choraminga o de Sorocaba. Mas eles se abraçam, é Copa do Mundo e eles vão, pela primeira vez, assistir a uma. Sem as mulheres, sem as mulheres, como disse o de Teófilo Otoni.

Tem um outro que sabe tudo sobre o baixo Pigalle. E Moulin Rouge é com ele mesmo. Disse que tem os telefones de umas dançarinas. Coisa finíssima. Aliás, diz depois de detonar mais um copo de uísque: Pra falar a verdade, nem gosto de futebol. Vou mesmo é pelas francesas. No que um outro retruca: Me disseram que elas não tomam banho.

Realmente, pelo menos aqui, os homens fazem o que querem. O seu Joaquim, com a alvinegra camisa do XV de Piracicaba, diz que foi a mulher dele quem o mandou pra Copa. Disse que ele estava precisando relaxar. É isso aí, figura. Vou cair na maior gandaia, meu!

Leio uma entrevista do Zagallo: Crise é invenção de jornalistas mau elementos. Sou um deles, pensei.

Agora, além da buzina, aquela corneta infernal, temos aqui um tambor, uma cuíca e um reco-reco. De repente é aquela corrente pra frente. Parece que todo o Brasil deu as mãos, salve a seleção!

O comandante anuncia momentos de turbulência e pede pra todo mundo sentar. Imagina, sentar. O que o torcedor quer mesmo é a turbulência. Bagunça, diria uma criança. Quer bagunçar. Quer a anarquia total. Deixou pra trás a mulher, os filhos, o trabalho, o penta do cunhado e a macarronada fria da sogra. Veio pra rosetar mesmo.

Agora a mulher não manda mais e ele faz o que tem vontade.

Se deixar, ele se veste de mulher e triunfalmente ensaia um samba em frente ao Arco do Triunfo.

Se deixar, ele sobe nu a Torre Eiffel e, se ninguém segurar, faz xixi lá do troisième.

Se deixar, ele coloca um biquíni de bolinha amarelinha e mergulha no Senna em frente a Notre Dame, sem se dar conta que Notre Dame, em português, é Nossa Senhora.

Se deixar, ele nunca mais volta.

Vamos aterrisar, pessoal?

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